Milei, Flávio Bolsonaro e Lula: da ‘motosserra’ ao custo social que entrou na eleição
Javier Milei, Flávio Bolsonaro e Lula estão no centro de um debate que virou personagem da campanha presidencial. A política econômica do presidente argentino passou a ser citada abertamente na corrida eleitoral brasileira após a visita de Flávio a Buenos Aires para o lançamento de sua campanha, em 25 de julho, e virou munição tanto para elogios quanto para alertas públicos.
O babado chegou com números: a gestão de Milei anunciou redução do déficit e queda forte da inflação, e também com cenas de rua e protestos em universidades na Argentina neste mês. As campanhas de Flávio e de Lula pegaram esses elementos como peça de argumentação, cada uma com foco distinto, e o tema passou a pautar debates e entrevistas no Brasil.

O contexto começou a ganhar forma quando líderes e economistas passaram a usar os resultados e as reações sociais da experiência argentina para defender ou criticar propostas de ajuste fiscal no Brasil, transformando o caso em exemplo prático de até onde cortes e liberalização econômica podem ir.
O que mudou na economia argentina e onde começou o desgaste
A administração de Javier Milei conseguiu, segundo dados citados, colocar as contas públicas em equilíbrio e reduzir de forma drástica a inflação, que caiu de 211,4%</b em 2023</b para 31,5%</b em 2025, o menor nível em oito anos. As exportações cresceram e o país voltou a registrar saldos positivos no comércio exterior. O mercado festejou no curto prazo: o índice S&P Merval teve alta acumulada de quase 115%</b em dólares e 174%</b em pesos em 2024, e o Produto Interno Bruto avançou 4,4%</b em 2025.
O entusiasmo, porém, perdeu força. A dificuldade para acumular reservas em dólar, a desvalorização do peso e o desgaste político abalaram o humor dos investidores. O ajuste , apelidado de Plano motosserra pelas medidas de corte , incluiu redução de ministérios, contenção de gastos e cortes em subsídios que antes mantinham tarifas de energia, água, gás e transporte abaixo do custo integral.
O efeito nas ruas foi crescente. Após queda inicial, a pobreza voltou a subir e atingiu cerca de um terço da população, segundo as informações disponíveis. Mais de 32 mil empresas fecharam ou deixaram de ter funcionários registrados desde o início da gestão, enquanto o desemprego alcançou 7,9%, o maior nível desde 2021. Em bairros mais pobres, relatos mencionam cozinhas comunitárias lotadas, registros de escambo e famílias recorrendo a empréstimos de curto prazo para comprar comida.
O clima também se expressou em protestos: milhares de estudantes e professores ocuparam ruas para cobrar mais recursos para as universidades públicas, e em Buenos Aires uma manifestação terminou em confronto com a polícia. A popularidade do presidente cedeu, conforme pesquisas, com desaprovação em alta especialmente entre os entrevistados de menor renda.
Como o caso argentino entrou na disputa eleitoral brasileira
O episódio ganhou ar de celebridade política quando Flávio Bolsonaro defendeu publicamente a política de Milei durante passagem por Buenos Aires. Flávio afirmou que, quando Milei assumiu, a Argentina estava falida e que o presidente argentino “cortou a própria carne do Estado com uma motosserra” ao reduzir ministérios, acabar com privilégios e equilibrar as contas. A coordenação econômica da campanha de Flávio, representada pela economista Daniella Marques, também elogiou Milei, dizendo que ele seria um exemplo em termos de capacidade de investimento e redução de burocracia e impostos.
Do outro lado, a campanha de Lula explorou justamente os efeitos sociais do ajuste argentino. Peças do PT destacaram a alta da pobreza, a reforma trabalhista aprovada na Argentina em fevereiro, que permite jornadas de até 12 horas com compensação e altera regras de indenização, e um acordo entre Argentina e Estados Unidos sobre minerais críticos, usando frases como “Flávio Bolsonaro quer transformar o Brasil no modelo de Milei” e “Milei fez lá. Flávio quer fazer aqui”.
O assunto chegou ao debate presidencial no segundo turno no Brasil, quando Lula perguntou a Flávio Bolsonaro se ele pretendia adotar o modelo argentino. Flávio não respondeu diretamente à pergunta, mas disse que governos de direita precisam consertar problemas deixados por governos de esquerda, mantendo a linha de defesa do ajuste.
O governo federal também reagiu oficialmente. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a economia brasileira estava em situação melhor que a argentina, citando risco-país, dívida pública e inflação como comparativos desfavoráveis à Argentina.
Especialistas consultados ajudam a separar semelhanças e diferenças entre os dois países. Jimena Zuniga, analista de geoeconomia da América Latina da Bloomberg Economics, reconhece que Milei foi bem na estabilização macroeconômica e no crescimento total, mas destaca que o poder de compra ainda é a principal pendência, porque o crescimento se concentrou em setores com pouca mão de obra, como energia e mineração.
Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, aponta que a sustentação do equilíbrio fiscal veio com contenção de despesas que pressionou diretamente a renda disponível das famílias, enquanto Tito Nolazco, diretor da Prospectiva Public Affairs Latam, lembra que setores reagiram em ritmos distintos, com construção e indústria sofrendo mais que atividades exportadoras.
O esfriamento do mercado e a perda de apetite dos investidores em 2026 têm causas externas e internas: conflitos internacionais e juros altos nos EUA, somados a incertezas eleitorais, desemprego crescente, tensões sociais e resultados desfavoráveis ao governo no Congresso. Jimena Zuniga ressalta que o risco político é hoje a variável que mais pesa sobre os movimentos do mercado argentino.
No Brasil, a comparação foi usada para discutir limites do ajuste. Economistas ouvidos apontam que o país precisa equilibrar contas públicas, mas sem o choque nas proporções aplicadas na Argentina. Em agosto deste ano, a dívida bruta do setor público brasileiro chegou a R$ 11,05 trilhões, o equivalente a 82,9% do PIB, o que alimenta o debate sobre como e com que ritmo controlar o avanço da dívida.
O desfecho imediato dessa transferência de temas entre Argentina e Brasil fica atrelado a agendas eleitorais e a resultados econômicos: as eleições presidenciais na Argentina estão marcadas para outubro de 2027, e no Brasil a discussão sobre cortes, reformas e o chamado “tesouraço” de Flávio segue sendo usada como argumento de campanha, com posições e números citados por ambos os lados.
Entre dados, protestos e declarações de lideranças, o caso argentino virou espelho político no Brasil, servindo tanto como exemplo de estabilização macroeconômica quanto como alerta sobre custos sociais e riscos políticos, conforme mostram os indicadores, as declarações públicas e as pesquisas citadas.
Fonte da notícia: G1



