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Lula virou meme em deepfakes; maioria das peças eleitorais saiu de usuários comuns

Lula foi protagonista de memes gerados por inteligência artificial nas eleições de 2026, enquanto peças semelhantes sobre figuras como Flávio Bolsonaro foram menos frequentes; levantamentos do Observatório Lupa e do projeto VigIA mostram que a maior parte das deepfakes eleitorais não veio de exércitos digitais ligados a campanhas, mas de usuários comuns e contas anônimas, entre 2024 e 2026. As conclusões reúnem dados de monitoramento realizados antes e durante o primeiro turno e ajudam a dimensionar um cenário de circulação massiva de imagens e vídeos sintéticos no Brasil.

O crescimento do fenômeno acompanha a popularização de ferramentas de IA generativa no país desde 2022, com a chegada do ChatGPT, e se consolidou entre 2024 e 2026. Fontes oficiais e projetos de checagem identificaram tanto o avanço do volume quanto falhas na sinalização obrigatória dessas peças, o que deixou eleitores e fiscalizadores diante de um desafio prático e legal nas eleições.

Quem produziu e quanto cresceu o uso de deepfakes

Segundo o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, do Observatório Lupa, o uso de deepfakes cresceu mais de 308% entre 2024 e 2026. O dado aponta a rapidez com que imagens e vídeos sintéticos passaram a ser acessíveis, mesmo para quem não tinha conhecimento técnico aprofundado. Essa massificação ampliou o potencial de uso das ferramentas, tornando-as parte do repertório cotidiano de usuários digitais.

O projeto VigIA, também da agência Lupa, monitorou publicações durante o primeiro turno das eleições de 2026 e coletou 1.941 conteúdos suspeitos, dos quais analisou 972 imagens e vídeos. Desses, foram confirmados 920 casos de uso de IA. Do total de 920 publicações identificadas, 60% foram produzidas por perfis classificados como usuários comuns ou contas anônimas, segundo o relatório. Entre os formatos mais recorrentes estavam vídeos falsos em que jornalistas anunciavam notícias inventadas e clipes em que celebridades manifestavam, falsamente, apoio a candidatos.

O levantamento mostra que a origem das deepfakes nem sempre foi institucional ou claramente ligada a campanhas eleitorais. Em muitos casos, o conteúdo viralizou de forma espontânea por parte de eleitores, incluindo memes envolvendo o presidente Lula que alcançaram repercussão internacional, conforme avaliação de pesquisadores que compilaram os dados.

Sinalização, regras do TSE e o que dizem os especialistas

Em setembro deste ano o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu critérios para caracterizar um conteúdo como deepfake nas Eleições 2026. A definição adotada pelo órgão descreve deepfake como o “conteúdo sintético produzido ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente que apresente grau de realismo ou verossimilhança e crie, reproduza ou altere a imagem, a voz ou a manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia”. A norma eleitoral exige que peças criadas ou manipuladas por IA sejam devidamente sinalizadas.

Apesar da regra, o VigIA constatou que a sinalização foi respeitada em apenas 371 dos 920 conteúdos confirmados, cerca de 40% do total. Foram identificadas 549 publicações irregulares, das quais 75 receberam impulso pago ou impulsionamento direto por candidatos ou partidos políticos. A baixa taxa de rotulação coloca em evidência o trabalho que cabe às plataformas, aos fiscais eleitorais e à Justiça para identificar responsáveis e reduzir a circulação de conteúdo não identificado.

A pesquisadora responsável pelo mapeamento, Beatriz Farrugia, ressaltou a necessidade de cooperação entre Justiça e plataformas: “Se a gente quer bloquear de toda maneira a publicação de deepfakes pelo risco que impõe ao entendimento das pessoas sobre os eventos políticos, a gente precisa considerar que a maior parte desses conteúdos tem partido de contas de usuários e de avatares anônimos. Aqui a Justiça precisaria trabalhar com as plataformas para tentar identificar essas pessoas”. A declaração aponta para a dificuldade prática de enquadrar e conter publicações que não partem de atores identificáveis.

O pioneiro no estudo do tema no Brasil, Bruno Sartori, avaliou que, apesar da explosão no uso de ferramentas de IA, o teor das publicações , ao menos no período monitorado , foi menos nocivo do que se temia. Ele observou que “o brasileiro fez o que ele sabe fazer melhor: memes”, e que o cenário atual foi marcado predominantemente por conteúdos de engajamento e humor, com poucos registros, até o momento do levantamento, de aplicações com fins estritamente criminosos. Esse diagnóstico não invalida os riscos eleitorais, mas ajuda a explicar o perfil majoritário das peças detectadas.

A fundadora da Lupa, Cristina Tardáguila, chamou atenção para a escala do fenômeno: “Quando encontramos quase um conteúdo com IA por hora e vemos que a maioria não sinaliza o uso da tecnologia, temos uma dimensão do desafio que esse cenário representa não só para o eleitor como para os órgãos fiscalizadores”. A observação reforça que a velocidade de circulação e a falta de rotulação adequada ampliam a complexidade da verificação e da atuação regulatória.

Os dados compilados pelos relatórios reforçam dois pontos centrais: o primeiro é o salto no volume de deepfakes entre 2024 e 2026, e o segundo é a origem majoritária desses conteúdos em perfis comuns e anônimos. Juntos, esses elementos explicam por que a luta contra a desinformação na arena eleitoral passou a depender tanto de ferramentas de detecção quanto da colaboração entre órgãos públicos e plataformas digitais.

Dos números apresentados pelo VigIA, os principais pontos factuais que seguem em aberto para acompanhamento são o avanço na identificação de responsáveis pelas publicações anônimas e a ampliação das ferramentas automáticas de detecção validadas por pesquisadores, que foram usadas no monitoramento e identificaram os 920 casos confirmados entre os 1.941 conteúdos suspeitos coletados.

Crédito da imagem: Do total de 920 publicações identificadas durante o primeiro turno das eleições de 2026, 60% vieram de usuários comuns

Fonte da notícia: Exame.com

Jairo Lima

Jairo Lima é investidor, empreendedor digital e fundador do portal O Babado. Formado como técnico em eletrônica, viu a veia da tecnologia se cruzar com a vocação "fofoquerista" que falou mais alto. Apaixonado por cultura pop e bastidores das celebridades, transforma a apuração da vida dos famosos em conteúdo ágil, relevante e com credibilidade.

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